Tem algumas coisas que a gente aprende e leva pela vida adentro. Eu tive um professor – matemática financeira, segundo ano - que contou uma vez uma piada pra gente:
Uma criança chorava e gritava, dizendo pra mãe: “Eu não quero ir pra Europa, mãe, não quero, quero voltar pra casa!” E mãe dizia: “Cale a boca e continue nadando!”
Ele repetia essa última frase toda vez que alguém começava a questionar demais os cálculos, tentando entender os caminhos teoricamente lógicos da matemática. Ele explicava, explicava de novo e na terceira vez ele apenas dizia: “Cale a boca e continue nadando, a minoria só tem direito de espernear.” Ele sabia dizer isso sem ser estúpido, e a gente continuava nadando, até chegar ao destino: o fim do problema proposto. Eu sempre fui bem em matemática, nunca tive problemas pra ‘nadar’. No entanto, de vez em quando ainda me pego repetindo mentalmente: “Pare de tentar entender e explicar tudo, apenas continue nadando”. Porque a matemática da vida tem horas que é uma razão inversa, e pra chegar ao resultado é preciso se concentrar na aplicação da fórmula, e não ficar o tempo todo tentando entender o motivo.
Existem muitas coisas verdadeiras que ignoramos majestosamente. E ignoramos porque queremos, ou porque não sabemos a força que elas podem ter.
A sinceridade dos brasileiros é contestável pelo menos uma vez por dia. Temos o hábito de nos sentirmos magoados ao ouvir coisas desagradáveis. Ora, isso parece bem óbvio. Mas nem tanto; na maioria dos países europeus, por exemplo, as pessoas podem ser bem mais francas umas com as outras que não geram necessariamente uma mágoa.
Bem, mas é preciso também saber usar essa franqueza toda. A tendência das pessoas é se lembrarem da sinceridade somente nos momentos em que de fato querem magoar alguém.
Eassim temos uma desculpa irrefutável, afinal, só tivemos a intenção de ser sinceros, mesmo que só usemos isso como arma para ferir. E quando queremos elogiar acabamos forçando virtudes falsas, com o objetivo de conquistar, adulando apenas.
Mas e todas as vezes que não nos permitimos ser sinceros? E todas as vezes que apreciamos deliciosamente as virtudes de alguém e jamais fomos sinceros o suficiente para dizer o quanto essa pessoa nos dá prazer em usufruir de sua companhia? São essas as verdades que nunca dizemos. São as verdades que irão validar outras verdades.
Eu penso que preciso trabalhar bem mais minha sinceridade, tanto na hora de dá-la a alguém como na hora de recebê-la. E a melhor maneira de minha sinceridade ser aceita quando for algo negativo é criando minha credibilidade junto às pessoas ao lançar mão de uma sincera verdade ao perceber uma coisa agradável em alguém.
Exercito-me para que eu fique livre desta sinceridade capenga e doente, e estou tentando usar sempre a verdade com suas duas faces: para apontar virtudes e para alertar sobre defeitos. Sem desdém e sem bajulação, só mesmo para receber o benefício da credibilidade. E, claro, para receber os benefícios de relações mais sólidas e confiáveis.
Identifiquei um padrão no meu comportamento: quando estou agindo naturalmente, guiada pelo instinto e pelas partes não conscientes da minha psique, não costumo errar. Mas basta eu começar a levar algo com muito cuidado para fazer tudo certo, pesar atos e palavras, ter precauções, que me perco e estrago tudo. Os erros maiores são exatamente ao tentar acertar! Isto não é irônico?
Li, pela primeira vez, um livro do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre.
Nunca gostei muito de ler os filósofos, entendo sempre de outra forma essas obras. Acabo entrando neste universo do meu jeito, entendendo à minha maneira.
Seria censurável esta obra em seu tempo, talvez, hoje nem tanto. Porém o padrão de argumentação acho que não mudou muito. São ainda os mesmos pensamentos que se esgueiram em nossas mentes como camundongos num porão, usando as palavras dele próprio.
Personagens que questionam a própria liberdade, perdidos em seus vícios e idealismos, vivendo do que gostariam de ser, enquanto pensam que o que são é apenas um passatempo enojante.
Não há menção à felicidade, apenas os grandes temores de se levar uma vida abjeta.
É um livro sobre a liberdade.
O personagem principal confronta sua liberdade ao ser surpreendido pela gravidez indesejada da amante; Começa uma busca por dinheiro para pagar um aborto e neste meio tempo se questiona sobre um possível casamento e suas conseqüências sobre sua liberdade. Chega a concluir que abandonar uma mulher não é suficiente para ser livre.
Dentro desta guerra interior sobre princípios, valores, anseio de liberdade, desfilam os personagens, cada um mostrando um caráter e uma situação de vida em que qualquer um de nós poderia estar: a mulher decadente que se agarram ao amor tóxico de um jovem estudante, o homossexual que sente vergonha de ser um pederasta ignóbil, os viciados em cocaína, a mulher que aceita ser usada por um homem que jamais a assumirá, o homem que gosta de sexo com mulher mas assume gostar infinitamente mais da companhia masculina, o casamento por conveniência, a garota reprovada na escola que não quer voltar pro interior, a mulher que é induzida a abortar um filho que quer ter, a juventude perdida em vícios, os amantes todos, os comunistas, as intrigas e falta de virtudes... pessoas com várias faces, dependendo de que ângulo se olha.
E enfim, todos ansiando por coisas que não conseguem possuir.
E concluí, então, que só é feliz e livre realmente quem consegue dar valor ao que tem à mão e não se entrega a viver em busca de ideais apenas.
Habilmente Sartre resume isso tudo em um trecho:
“Levei uma vida desdentada”, pensou. “Uma vida desdentada. Nunca mordi; esperava, preservava-me para mais tarde – e acabo de perceber que não tenho mais dentes. Que fazer? Quebrar a concha? É fácil dizer. Aliás, que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira, deixando atrás de si uma esteira brilhante.”
Eis que me arrisquei a fazer minha crítica amadora sobre a obra; Os meus pensamentos/camundongos criaram asas e viraram morcegos, que voam cegos quando encontram a luz. Não há pretensões filosóficas, só deixei que meus morceguinhos voassem.
No sábado à noite vi, finalmente, o filme Crepúsculo. Perdi o começo, mas acho que não deve ter feito muita falta. Achei adolescente demais, mas bem feito. Belas imagens. É leve e romântico, bonitinho. O filme é um modelo bem básico: mexe profundamente com o imaginário feminino, com aquele mito do amor verdadeiro, adolescente e insensato, meio como "A Bela e a Fera"; e mexe com os garotos também, trazendo o modismo da inversão de valores, do culto ao vilão heróico.
As falas do vampirinho ‘vegetariano’ e politicamente correto derretem o coração de qualquer romântica. Dizer que não consegue ficar longe, que sente que precisa protegê-la? Ai ai ai! Ele até a leva para conhecer a família dele. E aí vem a cena em que ele leva a garota pra passear sobre as árvores (Acho que eram sequoias gigantes). Que vista é aquela? Deslumbrante... E ser sincero e mostrar a verdadeira face, e mostrar lugares lindos? Adoramos isto! Tem coisa mais gostosa que ouvir algo parecido com: “Vem comigo, confia em mim; vou te mostrar meu lugar preferido no mundo”? Fala sério! Receita de pudim de leite que dá certo! E para os garotos as cenas de ação, membros quebrados, inimigo queimado em pedaços, carros velozes, etc. E, claro, o cara azedinho que na verdade se mostra um herói, que ser vampiro pode ser legal. “Eu sei que você é bom, usa essa máscara apenas para afastar as pessoas”, diz ela. Os garotos adorariam ser vampiros e serem ovacionados como heróis por isso. Transgredir.
Vou ler o livro, acho que deve ter detalhes ótimos. Na verdade vou ler a saga toda desse “Harry Potter transilvânico”, onde o quadribol é substituído pelo beisebol durante tempestades. Vou intercalar com os clássicos densos e tensos que gosto de ler às vezes, e aproveito para relaxar e me distrair, alimentando minha curiosidade absurda sobre como poderia ser um amor romântico. Mas ainda prefiro um príncipe a um vampiro.
Ontem eu recebi um telefonema que restabeleceu meu ânimo. E o mais encantador é que foi só um telefonema simples, sem notícias inesperadas ou surpresas. Era só uma tia que, voltando do Mato Grosso depois de 90 dias por lá, ligou pra conversar um pouco. Ela contou dos lugares que conheço tão bem, de coisas corriqueiras. Mas isso me transportou de volta a um mundo feliz. Parecia que até o cheiro daqueles lugares eu pude sentir. Passei o dia leve, com o ânimo renovado.
Não que eu seja completamente infeliz aqui, mas é que estou aqui pelo dinheiro que ganho, e lá eu estou pela satisfação que tenho em construir e produzir. E as pessoas que me amam estão lá naquele mundo.
Eu, como todas as outras pessoas, acabo me submetendo a muita coisa para conseguir chegar onde quero. Não gosto muito do meu trabalho, mas ele é necessário agora. Vai me proporcionar tudo que sempre planejei.
Minha família é muito afetiva, não somos de ficar dizendo ‘eu te amo’ e fazendo declarações de amor. Somos de demonstrar nosso afeto diariamente abrindo o coração e dividindo tudo. É um privilégio imenso nascer num ninho assim; vejo que isso é raro. Conheço pessoas que não são capazes de dar um pouquinho de seu carinho porque se sentem fracos. E nunca encontram nada que lhes seja suficiente, achando que merecem receber o melhor, mas achando as pessoas indignas do que eles poderiam dar.
Isso me trouxe à memória minha irmã mais nova cortando meu cabelo. “Ah, isso é fácil de resolver, não precisa ir no salão, me dá uma tesoura que eu corto”. E cortou, e rimos muito juntas, por fazer juntas coisas que só as irmãs fazem.
Há uma frase que andei explorando nos últimos dias para tentar entender: “O amor não tem nada a ver com os outros. É um sentimento que vive dentro da gente.”
Sim... é aquilo que os religiosos dizem, sobre ter amor no coração. Quem tem, reconhece o afeto alheio e dá valor. Quem não tem, não adianta ser amado, essa pessoa nunca vai dar valor a isso. Simplesmente porque não sabe o que é... não sabe reconhecer amor quando entra em contato com ele. É tão simples, mas muito assustador para alguns.
E há também a fé. A fé é aquela certeza que temos de que algo vai dar certo, que vai acontecer. Eu tenho meus momentos de ansiedade, momentos de insatisfação, mas eu tenho a certeza inabalável de que vai valer a pena. Que tudo que desejo e trabalho por isto, acontece. A fé não se explica, é outra coisa que se tem ou não. Quem não tem essa certeza viva na consciência, prefere viver só o momento sem imaginar que há futuro.
Eu tenho fé e tenho amor... e agora rejuvenesci a coragem.
Mesmo quando dou o melhor de mim e só recebo em troca indiferença ou crítica, sem reconhecimento nenhum pelo meu esforço e pela minha entrega, sei que vai valer a pena. É só um exercício para eu aprender a reconhecer o que é verdadeiro e sincero, como aquele telefonema. Aquela simples conversa sobre coisas simples.
*A foto é dos meus cães, amor de bicho é incondicional.
A infância de quase todos nós foi toda cerceada por ‘não pode’ para todo tipo de ocasião. Era a forma de educar, de mostrar limites e de proteger filhotes contra perigos. Aí vem a vida adulta, pensamos que estamos prontos e lá vem uma nova avalanche de ‘não podes’ para tentar educar nosso comportamento em relação ao bel prazer alheio. Você não pode desistir, mas também não pode ir adiante, não pode mostrar o que sente, e também não pode ignorar seu coração, não pode ser imaturo mas não pode esquecer de ser racional, não pode invadir a privacidade de ninguém, não pode falar de amor, não pode ouvir música brega, não pode agir fora do senso comum, nem invadir, nem ousar, ah, e também não pode dizer palavrão. Isso tudo ataca a integridade alheia como se fosse crime, mas dizem que é para nosso bem. Bem, já temos tantas leis e regras, não ando aceitando bem que me imponham tantas novas regras ultimamente. E agora descobriu-se que temos que vigiar também nossos pensamentos constantemente, porque até pensar pode ser perigoso. Ficar atento ao que pensa o tempo todo é cansativo e castrador. Juro que tento, mas acho que era bem mais fácil quando meu pensamento era livre. Por uns dias eu estarei na fase do ‘eu cansei’. Ai de quem vier me dizer que não posso. Vai ser recebido com um ‘eu quero’. Ou um ‘eu não quero’. Ai de quem tentar me fazer esconder ou disfarçar. Ai de quem, seja quem for, quiser me ditar comportamentos duvidosos. Pode ser que eu volte a me vigiar e comportar um dia, ou nunca. Mas hoje estou bem cansada de ter que sorrir sorrisos falsos. Parece-me que o mundo se dividiu em dois tipos de gente: os de papel, que se queimam facilmente e somem. Igual aqueles tais amigos que são só pras horas boas, e na hora que vêem uma dificuldade acham que você ‘não pode’ ser fraco. Fraco é a pessoa que não agüenta a realidade; E tem os feitos de aço, aqueles que correm com a gente no meio do tiroteio, abaixam as calças e mostram a bunda pro mundo, fazendo piadas de humor negro e riem na hora do sufoco, enquanto choram ao mesmo tempo. Pode vir bala que não mata! E se a gente cair num poço bem fundo, sempre acha jeito de sair dele. São esses últimos que não se intimidam com o que os outros acham que a gente não pode. Obama está certo nisso: Yes, we can. E ouça a música, é legal.
Olá! Esse espaço foi criado para contar algumas histórias que eu e minha irmã vivemos por aí. O motivo é que os nossos amigos adoram rir desses 'causos', dizem que dá um livro; livro não dá, mas blog dá! Depois de algum tempo, senti necessidade de falar também sobre outros assuntos, então acabou virando um blog igual aos outros ;)
Luly.
Quem sou eu
Luly
São Paulo, SP, Brazil
Paranaense, 38 anos, morando em São Paulo. Escrevendo as conversas que tenho comigo, vivendo o que tenho pra viver, buscando sempre novos caminhos... E sendo feliz à minha maneira.