quarta-feira, outubro 08, 2008

HOMEM DE ANTIGAMENTE, MULHER DE HOJE.


Minha irmã voltou do supermercado contando que sentiu pesar no ar um olhar de preconceito na gôndola de bebidas.
Ela estava escolhendo umas bebidas pra gente, e com uma garrafa de vodka na mão deu de cara com um senhor, parado, olhando para ela, para a garrafa, para ela de novo... 'Era olhar de preconceito', ela disse. ‘Me olhava com desaprovação e quase desatei a rir, com pena do pobre, vivendo numa época que não é mais a dele.’
Provavelmente era mesmo olhar de preconceito. De cabeça quadrada onde as idéias não circulam porque enroscam nos cantos. De homem antiquado, à moda antiga, que traiu a mulher, bateu nos filhos, falou mal do irmão, teve inveja do vizinho, mas é muito macho! Homem como não existe mais hoje, do tempo em que mulher não bebia. E se bebesse era mulher de má fama. Do tempo em que mulher ficava em casa criando os filhos e cuidando de tudo, para que quando ele chegasse em casa não tivesse problema, os filhos não podiam abrir a boca, afinal ele estava cansado, e ela ficara em casa sem fazer nada. É... Não se fazem mais homens como antigamente, para o nosso bem.
Cabeça quadrada que se visse a mim e a minha irmã quando precisamos ajudar na lida do gado, ficaria envergonhado, porque talvez não acompanhasse nosso passo ligeiro na estrada poeirenta ou nas armadilhas do capim. Mas certamente teria uma palavra de desaprovação na volta pra casa, quando a gente parasse num boteco de beira de estrada com os peões, primos, tios ou outras irmãs e pedíssemos uma cerveja para cada. Andamos sempre em bandos, rindo e comentando o que se passou durante o dia de trabalho exaustivo: quando um atolou no brejo e foi preciso arrancá-lo de lá, quando outro foi prensado por uma porteira ou quando alguém levou um coice de um animal menos amável. Mostrando as bolhas nas mãos e pés e os esfolados e arranhões nos braços. São troféus.
Na hora de trabalhar, trabalhamos... Cuidamos da nossa parte. Na hora de aplacar a sede, ganhamos o direito de escolher o que mais agrada para matar nossa sede.
O respeito é uma coisa que se conquista com atitude. Jamais um caminhoneiro ou peão me dirigiu qualquer tipo de desaforo ou olhar de desrespeito em qualquer desses botecos de beira de estrada. Talvez porque não sejam como aqueles homens de antigamente, e sabem bem onde pisam. Eles não nasceram ontem, sabem bem que pode ser perigoso enfrentar uma mulher de hoje.

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